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Queda na bolsa de valores é mais um símbolo do cenário adverso

Notícia publicada em: 12/janeiro/2016

É sempre possível argumentar que o mercado de capitais no Brasil tem dimensões acanhadas e congrega um número pequeno de investidores. Mas o rompimento da barreira dos 40 mil pontos do Ibovespa no pregão de ontem tem relevância como um termômetro do estado de apatia da economia brasileira. O patamar de 39.950 pontos registrado – o menor desde março de 2009 – é também um símbolo da reversão das pretensões ambiciosas que cercavam a bolsa de valores no país até pouco tempo atrás.

O período áureo do boom das commodities ficou no passado e não deve ser reavivado nos próximos anos, como indica o comportamento declinante da economia chinesa, a principal responsável pelo fenômeno na primeira década do milênio. Essa perspectiva atinge em cheio o Ibovespa, que encerrou o ano passado aos 43.395 pontos, com um recuo de sete anos em número de pontos e a terceira queda anual consecutiva. Como apontou a empresa Economática, o valor de mercado das empresas brasileiras em bolsa, ao final de 2015, era menor do que o valor de mercado do Google.

Os indicadores da economia brasileira, por sua vez, confirmam a combinação de inflação elevada, mesmo que o IPCA caia abaixo de dois dígitos neste ano, com um nível de recessão ainda muito acentuado, próximo a uma retração de 3%, de acordo com as últimas estimativas de mercado para 2016. A combinação de um cenário macroeconômico adverso a condições microeconômicas também desfavoráveis explica o comportamento desanimador do mercado acionário brasileiro, na avaliação do advogado Francisco Petros, suplente da representação dos acionistas minoritários da Petrobras.

Além do contexto macroeconômico, Petros alinha pelo menos quatro fatores que justificam a realidade atual da bolsa de valores. O primeiro deles é que o Brasil continua a ser um país “muito arriscado” para o acionista de mercado, que é como ele prefere designar o que se convencionou chamar de acionista minoritário. São os detentores dos papéis preferenciais, que não têm direito a voto. Apesar de toda a evolução da governança corporativa, os riscos para esse tipo de acionista, que responde pela principal parcela do capital das empresas, ainda é muito elevado.

O segundo fator apontado por ele é a reduzida base acionária do mercado de capitais brasileiro. Como não conseguiu ampliar a oferta de empresas, concentrando-se em um pequeno número de papéis, a Bovespa permanece muito sensível aos movimentos de fluxos de capitais. A recomendação tradicional de diversificação dos investimentos, nesse contexto, acaba por não representar uma proteção efetiva para os investidores. “Quando vêm os fluxos negativos, pelos resgates dos investidores internacionais e locais, o impacto direto é muito violento”, avalia Petros.

Prejuízos
O terceiro fator alinhado por ele parte do efeito negativo das commodities sobre as principais empresas listadas na bolsa brasileira, o que fez com que “a maior parte da base acionária fosse afetada dramaticamente pelas fortes quedas que ocorreram”. Os investidores individuais que foram atraídos para a bolsa no período de bonança da economia brasileira e de perspectivas promissoras para o mercado de capitais acabaram atingidos fortemente pela mudança de cenário.

Os trabalhadores que aplicaram recursos do FGTS em papéis da Petrobras e da Vale, por exemplo, amargaram uma queda de 32,73% na cotação das ações preferenciais da petroleira no ano passado e de 43,56%, no caso da mineradora. Essa modalidade de aplicação tinha como propósito justamente a popularização dos investimentos no mercado de capitais no Brasil, numa época em que o país respirava otimista e confiança – o inverso do quadro atual.

Por fim, Petros lembra que a concorrência das aplicações de renda variável com os investimentos em renda fixa ainda é muito desigual no Brasil. Mesmo nos períodos em que a bolsa de valores mostrava um comportamento ascendente, a taxa de juros permaneceu alta no país. “Olhando o ciclo como um todo, investir em renda fixa ainda é uma grande vantagem”, afirma. E a perspectiva, neste início de ano, ainda é de um novo aumento na taxa Selic pelo Comitê de Política Monetária (Copom), em cima de uma taxa já na altura de 14,25% ao ano.

A soma desses quatro fatores aponta para uma posição muito vulnerável da pessoa física no mercado de capitais. É muito frequente que se critique o comportamento desses investidores, que costumam ter dificuldades de identificar a hora de sair e de entrar na bolsa de valores. Petros evita reverberar esse tipo de crítica. Os investidores que enfrentaram pesados prejuízos no mercado de renda variável consolidaram a visão de que se trata de um mercado especulativo e arriscado, uma percepção que coloca mais algumas barreiras no caminho da ampliação da base acionária.

Fica cada vez mais distante a meta traçada pela direção da bolsa, em 2009, de alcançar cinco milhões de investidores individuais no país. Hoje, o número de investidores pessoas físicas, tendo como base o critério do CPF cadastrado em cada agente de custódia, está próximo a 580 mil. No ano de 2010, esse número era de 610.915. A fase negativa vivida pela economia brasileira, que perdeu o grau de investimento em duas agências de classificação de risco, está abortando mais uma tentativa de consolidar no país um mercado de capitais forte e atraente também para as pessoas físicas.

Fonte: G1